A escritora brasiliense Marília Mangueira lança seu segundo livro, Folhas de Bordo, um romance passado em Brasília e no Canadá que fala sobre fé, transformações e o amor do casal Carolina e Christopher. Conversamos com ela sobre essa nova obra.

De onde nasceu a história de Carolina e Christopher? Houve uma situação, imagem ou experiência que deu origem ao romance?
Sim, uma imagem. Os homens loiros sempre chamaram a minha atenção. E no final do ano de 2021 eu tive uma inspiração e foi aí que surgiu o Christopher. E eu decidi escrever sobre ele. A princípio, eu não sabia direito o que fazer, a única certeza que eu tinha é que ele seria muito bonito, teria uma personalidade forte e se apaixonaria por uma mulher também de personalidade forte. Como eu o imaginava loiro, pensei na possibilidade de ser um estrangeiro e acabei escolhendo o Canadá como o país dele de origem. Então eu vi a possibilidade de escrever o meu primeiro romance. A Carolina surgiu praticamente junto com ele (mas a biografia dela só foi concretizada em 2025). Inicialmente eu queria fazer um hellblazer, algo semelhante ao filme Constantine (com Keanu Reeves e Rachel Weisz), escrevi bastante sobre esse tema sobrenatural, mas desisti (deletei tudo) e parti para um romance mais natural.
O livro coloca Brasília e o Canadá em diálogo, inclusive por meio de contrastes como calor e frio, inverno e verão. Você já morou no Canadá? Sentiu na pele esse contraste?
Eu nuca morei no Canadá. Foi pura inspiração e muita pesquisa! Fui me apaixonando pelo país à medida que o personagem tomava forma e eu escrevia. Sonho em visitar o Canadá agora e sentir na pele esse contraste.
Por que o título Folhas de Bordo? Em que momento você percebeu que a árvore e suas folhas poderiam sintetizar o significado da história?
Na verdade, eu escrevi bastante e o livro nem tinha um título, costumava chama-lo de “C e C” até escolher um nome. Só no início de 2023 que eu comecei a pensar num título, pensei em vários, mas não gostava de nenhum. Um dia vi um vídeo de uma escritora falando sobre títulos que envolviam símbolos e na hora aquilo me despertou e o novo título nasceu naquele momento (ele estava diante da minha cara e eu não via). Aí eu fui dando ênfase ao símbolo.
No final, aparece uma imagem muito forte: as folhas caem, mas as raízes permanecem. Essa metáfora estava presente desde o início da escrita ou surgiu durante o processo?
Surgiu durante o processo. Eu nem sabia como ia ser o final. Faço parte do time dos “escritores jardineiros” – começo a escrever e deixo a escrita fluir, muitas descobertas ocorrem no processo e até eu me surpreendo.
A fé aparece de diferentes maneiras na história, inclusive nos diálogos sobre milagres, profecias e impossibilidades. Qual é o papel da fé na transformação dos personagens?
É a de mudá-los por dentro. A fé atua de dentro para fora; ela renova a mente e o coração, tem o poder de mudar a forma que eles veem o mundo, abrir os olhos deles para um mundo mais espiritualizado e não somente material. É uma forma de reconhecer que há um Deus e de enxergá-lo até nas coisas que parecem coincidências. É também o combustível da esperança, apesar das circunstâncias.
O que despertou em você a vontade de escrever este livro? Houve algum episódio ou descoberta que funcionou como ponto de partida?
Inicialmente foi o desejo de ser autora de um romance, uma vontade de desbravar novas terras, além dos contos. Mas com o processo, o desejo se transformou em realmente contar a história desses personagens.
Quanto tempo levou entre a ideia inicial e a conclusão do livro? Quais foram as etapas mais desafiadoras?
Levou 4 anos. A etapa mais desafiadora foi quando eliminei a ideia inicial do hellblazer e praticamente iniciei a narrativa do zero. Outro momento difícil foi quando fiquei sem computador, justo na época que a escrita mais fluía! O computador explodiu: um notebook que eu usava há 12 anos. Aconteceu de tudo!
Que tipo de pesquisa foi necessária para reconstruir os fatos, histórias e personagens apresentados na obra?
O ser humano me inspira. Pessoas me inspiraram em toda a narrativa. Durante a pandemia chorei com pessoas que perderam pessoas queridas, durante os torneios de hipismo que frequentei vibrei com os vencedores, mas também consolei aqueles que caíram de cavalos. Eu revisitei lugares da minha infância, idade adulta e também da minha alma. Trabalhei alguns meses numa hípica. A internet também ajudou muito nas pesquisas históricas e etnográficas. Mas a imaginação… essa é a chave, Einstein dizia que ela é melhor que o conhecimento.

Quanto da autora existe em Carolina, Christopher ou nos outros personagens? Há experiências, sentimentos ou memórias pessoais transformados em ficção?
Quando Max Perkins leu “Olhe para casa, Anjo” de Thomas Wolfe, ele presumiu que o livro devia ter natureza autobiográfica. E Thomas Wolfe respondeu: É o único jeito de escrever, não é!?
Qual foi o momento mais emocionante ou marcante para você durante a realização do livro? E qual foi o momento mais difícil?
Se eu responder essa pergunta, eu vou arruinar tudo, prefiro evitar spoilers.
Em algum momento você pensou em desistir do projeto? O que fez você continuar?
Sim. Durante o processo eu acabei acionando alguns gatilhos… Foi necessário fazer uma pausa de 1 ano. Nesse tempo fui escrever outro livro. Depois retornei com a mente melhor.
O que você gostaria que o leitor sentisse ou pensasse ao terminar a última página?
Que ele veja e sinta o que não teria visto e nem sentido sem lê-lo.