A destruição do Cine Márcia em 1978

Um acontecimento inesperado marcou a cidade no dia 24 de março de 1978. A depredação do Cine Karim Márcia, que ficava no Conjunto Nacional onde hoje é a loja Zara, por centenas de jovens que assistiam ao filme Rock é Rock Mesmo (The Song Remains The Same).

Cartaz do filme lançado no Brasil em 1978

A película havia sido lançada em 1976, mas só chegou ao Brasil dois anos depois. Era estrelada pela banda Led Zeppelin no auge da fama e mostrava uma apresentação ao vivo intercalada com uma história cheia de fantasia e delírios. O público brasiliense esperava o filme com ansiedade e lotou completamente a sala do cinema. É claro que tudo virou um grande show de rock e os jovens levantaram das cadeiras para dançar, o que levou a administração do Karim a parar a projeção. Todos ficaram revoltados e iniciaram um grande quebra-quebra que só terminou com a chegada da polícia.

O Correio Braziliense cobriu o ocorrido. Confira a matéria na íntegra.

PLATEIA DROGADA DESTROI CINEMA AO SOM DO ROCK

UM FESTIVAL DE MACONHA EM PLENO KARIM MÁRCIA

O cinema “Karim Márcia” foi praticamente destruído na noite de anteontem quando mais de 800 jovens, que assistiam ao filme “Rock é Rock Mesmo”, alguns sob efeito de maconha e outros produtos alucinógenos, passaram a depredar o estabelecimento, diante dos protestos dos funcionários.

O Correio Braziliense foi informado da atuação dos “vândalos”, enquanto que a Central de Operações da PM, também avisada sobre o ocorrido, enviou ao local mais de 20 viaturas da Radiopatrulha para verificar a ocorrência. Entretanto, nenhum dos rapazes foi preso, porque, ao tomarem conhecimento da aproximação da polícia, fugiram em debandada, deixando atrás de si o cinema destruído.

ESQUADRILHA DA FUMAÇA

O filme “Rock é Rock Mesmo” estava nos primeiros 20 minutos de exibição. De repente, mais de 100 rapazes, aparentemente drogados, começaram a cantar e xingar palavras de baixo calão ao ritmo do som do conjunto “Led Zeppelin”. Em menos de cinco minutos, grande parte das pessoas que estavam no cinema, inclusive garotas com idade de 13 a 17 anos, passaram a acompanhar o som do conjunto “Pop”.

Eufóricos, os rapazes passaram a fumar maconha, no interior do cinema, sem o menor receio. Os baseados passavam de boca em boca até que mais de 300 jovens dirigiram-se para o palco, onde passaram a dançar acompanhando o ritmo e som das “trepidantes” músicas do conjunto.

Houve protestos, mas dez minutos depois todos aderiram à atitude do grupo “pioneiro”. E o interior do cinema ficou como se fosse um local onde se realizava um “verdadeiro festival de música”. Rapazes com cigarros de maconha na boca chegaram a dizer” “Podes crer, ô cara, essa curtição tá um barato. Vamos entortar isso aqui. Com fumo ou sem fumo. Até parece que estamos num festival de música”. Todos aplaudiram os maconheiros.

Trailer do filme Rock é Rock Mesmo (The Song Remains the Same)

DESTRUIÇÃO

Diante do que estava acontecendo, a projeção foi suspensa. Revoltados, mais de 800 jovens (o cinema estava superlotado) partiram para a destruição. Retiraram os extintores de incêndio das paredes e os esgotaram, atingindo uns aos outros. Cerca de 30 rapazes, mais afoitos, retiraram e rasgaram as cortinas.

E, quando a destruição já alcançava grande proporção, um rapaz drogado deu a seguinte ideia: “Vamos botar pra quebrar, moçada”.

Minutos depois, mais de 200 poltronas estavam aos pedaços. Não satisfeitos, os “vândalos” retiraram as mangueiras dos respectivos hidrantes e passaram a molhar uns aos outros. Dez minutos depois, o cinema estava completamente inundado.

A esta altura dos acontecimentos, um maconheiro gritou: “Atenção, moçada, os tiras estão se aproximando”. Houve uma tremenda algazarra, todos queriam fugir o mais rápido possível. Os funcionários do cinema, impassíveis, nada fizeram para conter a “Esquadrilha da Fumaça”, temendo serem massacrados. O fato é que, quando a polícia chegou ao local, só encontrou os funcionários assustados e o cinema praticamente destruído.

Agentes da Segunda Delegacia de Polícia da Asa Norte, que foram também chamados para conter a fúria dos vândalos, nada conseguiram fazer. O delegado de plantão daquele distrito policial, Norberto Neto, o “Moralizador”, entrou em contato com o Instituto de Criminalística que, de seu lado, enviou peritos para realizar os levantamentos periciais de praxe.

O delegado Norberto Neto disse que está aguardando representação do proprietário do cinema para que seja instaurado inquérito policial por danos. Informou ainda a autoridade à reportagem policial do CB que já conseguiu levantar a identificação dos principais autores, inclusive já apurou onde eles moram e quem são seus respectivos pais. Todos, segundo o delegado “Moralizador” serão indiciados como determina a lei.

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