Babilônia Norte: nascida para ser diferente

Em uma cidade conhecida mundialmente pela geometria, pelos grandes eixos e pela arquitetura modernista, existe um lugar que parece ter decidido seguir suas próprias regras. Entre as quadras 205 e 206 Norte, os arcos brancos, os jardins suspensos, os corredores e as passagens subterrâneas formam um conjunto arquitetônico que chama atenção justamente por fugir do padrão. É a Babilônia Norte, nome pelo qual ficou conhecida a entrequadra comercial que, oficialmente, é a CLN 205/206.

O projeto nasceu pelas mãos da arquiteta Doramélia Marra da Motta, que estudava Arquitetura e Urbanismo na Universidade de Brasília entre 1971 e 1976. Ainda na universidade, ela começou a desenvolver a ideia de criar uma área comercial diferente das demais existentes no Plano Piloto. A proposta seria concretizada alguns anos depois, quando Doramélia foi trabalhar na Terracap.

Doramelia da Motta, arquiteta criadora da Babilônia Norte

A vontade de sair do comum

A ideia de Doramélia partia justamente da vontade de romper com a repetição. Em vez de reproduzir a fórmula predominante das comerciais de Brasília, a arquiteta imaginou um espaço que privilegiasse a circulação de pessoas, a convivência e a relação entre comércio e áreas verdes.

O resultado foi um conjunto de blocos comerciais unidos por arcos geométricos, com fachadas brancas e jardins implantados sobre as construções. Outro elemento incomum são as passagens subterrâneas, concebidas para conectar os dois lados da entrequadra e facilitar a circulação dos pedestres. A quadra foi inaugurada em 1979.

Passarela subterrânea entre as quadras comerciais

Uma das maiores rupturas com o modelo tradicional de Brasília está na própria orientação dos estabelecimentos. Enquanto normalmente as fachadas comerciais se voltam para a área de circulação da entrequadra, na Babilônia Norte elas foram concebidas voltadas para as quadras residenciais. A intenção era aproximar o comércio das pessoas que viviam no entorno, em uma escala mais humana e menos dependente do automóvel.

A arquitetura acabou produzindo uma espécie de cidade dentro da cidade: corredores, túneis, rampas, arcos e jardins criam uma experiência espacial bastante diferente daquela encontrada nas outras comerciais do Plano Piloto.

De “quadra estranha” a Babilônia

A originalidade, porém, nem sempre foi vista como qualidade. Durante anos, a 205/206 Norte ficou conhecida como a “quadra estranha” de Brasília. A arquitetura pouco convencional e a dificuldade de orientação dentro do conjunto contribuíram para a fama de lugar confuso.

Foi justamente dessa percepção que nasceu o apelido Babilônia Norte. O nome também ganhou força pela presença dos jardins elevados, que passaram a ser associados aos lendários Jardins Suspensos da Babilônia. A palavra “Babilônia” ainda carregava a ideia de um lugar de mistura, diversidade e certa confusão, características que acabaram combinando perfeitamente com a identidade da quadra.

O nome, inicialmente informal, ganhou força entre moradores, comerciantes e artistas. Um documentário dirigido por Renan Montenegro, lançado em 2013, ajudou a consolidar a denominação e a apresentar a quadra como um espaço com potencial cultural e artístico.

Um projeto que não saiu exatamente como planejado

Parte da história da Babilônia Norte também é marcada pelo distanciamento entre o projeto original e a forma como o espaço foi ocupado ao longo das décadas.

Segundo relatos da própria Doramélia, algumas das soluções pensadas para organizar visualmente a área comercial foram modificadas pelos proprietários das lojas. Painéis que escondiam áreas de serviço, por exemplo, foram retirados, alterando a leitura arquitetônica concebida originalmente.

Com o tempo, a quadra perdeu parte de sua vitalidade. Alguns estabelecimentos fecharam e o local chegou a ser visto como um espaço pouco valorizado dentro do Plano Piloto. Mas aquilo que para alguns era um problema começou a ser percebido por outros como justamente o seu maior patrimônio: a personalidade.

A segunda vida da Babilônia

A partir dos anos 2010, artistas, fotógrafos, empreendedores e novos comerciantes começaram a ocupar a região. A arquitetura incomum passou a ser valorizada como cenário e como identidade.

A quadra recebeu eventos culturais, exposições, intervenções artísticas, cinema ao ar livre e novos negócios ligados à economia criativa. Um movimento de revitalização começou a transformar o antigo “patinho feio” das comerciais em um endereço associado à arte e à cultura brasiliense.

O processo também encontrou eco na academia. Trabalhos da Universidade de Brasília passaram a estudar a Babilônia Norte como exemplo de uma ocupação atípica do Plano Piloto, destacando seu potencial como espaço de encontro, turismo cultural e experiência urbana.

Projeto de conclusão do curso de Arquitetura da UnB feito pelo aluno Luiz Alberto dos Santos, revitalizando a Babilônia Norte

Hoje, a quadra abriga estúdios, espaços ligados à arte e à economia criativa, comércio e atividades culturais, além de continuar funcionando como área comercial de bairro, mostrando como uma arquitetura original consegue dialogar com novos usos contemporâneos.

Uma Brasília que também é feita de exceções

Mais de quatro décadas depois de sua inauguração, a Babilônia Norte acabou cumprindo, de certa maneira, a ideia que motivou Doramélia da Motta ainda nos tempos de estudante: criar uma quadra diferente.

Sua importância está justamente no fato de não tentar ser igual às outras. Em uma cidade planejada a partir de uma lógica rigorosa de eixos, setores e superquadras, a 205/206 Norte introduziu uma dose de surpresa, mistura e informalidade.

A arquiteta que queria experimentar uma nova maneira de fazer uma área comercial acabou criando um dos endereços mais singulares de Brasília. E o espaço que durante anos foi chamado de “quadra estranha” hoje é reconhecido como parte da diversidade arquitetônica e cultural da capital.

A Babilônia Norte permanece, assim, como uma espécie de contraponto ao cartão-postal tradicional de Brasília: menos monumental, mais cotidiana; menos previsível, mais surpreendente; e, sobretudo, profundamente brasiliense justamente por ter ousado ser diferente.

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